segunda-feira, 4 de julho de 2016

Capitulo 1



Sentada na escrivaninha, tentando resolver os exercícios da lista que o professor havia passado mais cedo na aula, me distraio com o papel de parede logo a frente. Adorava aquele papel de parede, o mapa múndi, todos os cinco continentes e os 193 países. As vezes me imaginava lá, na Dinamarca, que é considerado pela ONU o país mais feliz do mundo. Mas as vezes, me imagino na Suíça, onde a morte assistida é permitida.
A porta se abre, era Rafael, meu pai.


-Oi, oque está fazendo? -perguntou ele
-Apenas resolvendo uma lista de exercício -aponto com a lapiseira para a lista em cima da escrivaninha.
-Laura, você devia sair mais, se divertir e aproveitar a sua adolescência.
-Mas eu estou aproveitando, do meu jeito. Quer que eu faça o jantar? -troco logo de assunto. Ele sabe que não me dou muito bem com pessoas em geral, sou sempre a garota estranha e muda.
- Na verdade hoje vamos jantar na casa de uma colega de trabalho minha, gostaria que você se arrumasse, sairemos às 20:00 horas.
- Tudo bem, eu te encontro lá embaixo às oito.


Logo que ele saí, pego o celular que estava em cima da cama e vejo as horas, 19h40. Nem sei que roupa vestir, quase nunca saio de casa, meu pai nunca fala sobre os amigos dele e nunca sai com eles , eu muito menos. Olho para o guarda roupas, noto que não tenho roupas para sair. Não me preocupo muito com beleza então coloco apenas uma calça jeans preta e uma blusinha branca novinha que Rafael havia me dado no meu aniversario.

Uns 10 minutos depois chegamos e meu pai toca a campainha do apartamento. Uma mulher de olhos verdes e cabelos negros, preso em um rabo de cavalo, abre a porta. Ela está usando uma calça legging preta e uma vest leg de lã vermelha, me senti mau vestida.
-Oi, Rafael.- disse a mulher
-Oi, Aline. Essa é minha filha, Laura. -respondeu meu pai.
-Oi, Laura - disse a mulher que agora tinha o nome, Aline.
-Oi, Aline. -digo num tom baixo, quase um sussurro.
-Rafael, sua filha é linda! Vai ter que me contar o que faz com esse cabelo castanho pra ficar assim tão lindo, sedoso. Manter desse comprimento enorme deve ser difícil.-ela estava sendo gentil, de uma forma que chegava a ser até meio incomodo. -Entrem -ela da passagem- a sala é logo ali- ela aponta para a esquerda- podem sentar-se.
-Obrigado. - disse Rafael.
Andamos até a sala e sentamos no sofá, meu pai e Aline começaram a conversar e eu fiquei sentada ali sem saber o que fazer, nunca tinha ido até a casa de nenhum amigo do meu pai, talvez se ele ainda fosse detetive seria diferente, agora ele é... na verdade eu nem sei o que ele é.
Eles continuam conversando até que ouvi um barulho de porta se abrindo, pouco tempo depois um garoto surge na sala, um garoto alto, mais ou menos um metro e oitenta, cabelo pretos e olhos verdes, iguais aos de Aline. Talvez fosse o filho dela, mesmo ela não aparentando ter mais que 35 e o garoto mais que 21. Ele usava uma calça preta, uma camisa social bordo abotoada até o pescoço e uma jaqueta de couro por cima.

-Oi galera. - Ele vem até nos.
-Oi, você deve ser o Pedro. - Diz Rafael se levantando e dando um aperto de mão. - Sou o Rafael, colega de trabalho da sua irmã e esta é a minha filha, Laura.
-Oi Laura.- disse Pedro sorrindo.
-Oi, Pedro. - Me levanto e dou um aperto de mão também.
Ninguém mais se pronunciou, fica um clima tenso, até que Aline o quebra.

-Então já que ele chegou, vamos jantar?
- Claro, estou morrendo de fome! - Rafael respondeu rapidamente
 
Aline nos guia até a sala de jantar. Aline e meu pai sentam lado a lado de um lado da mesa e Pedro e eu do outro. Aline, havia feito macarronada e lasanha. Há quanto tempo será que não experimento o sabor de uma comida caseira, alem da minha? Coloquei pouco no meu prato, pra não ser descortês. Saboreio cada pedaço, naquele momento era como se nada tivesse acontecido, tudo fosse normal, bom.
Quando termino, todos já haviam terminado, Rafael e Aline já nem estavam mais na mesa e Pedro estava mexendo no celular. Quando percebeu que eu tinha terminado, perguntou:

-Quer sair daqui?
-Oi? -disse sem entender nada.
-Qualquer lugar. -no mesmo instante lembro do mapa múndi na parede do meu quarto. Sim, eu queria sair dali. Queria conhecer a Holanda, Espanha, Portugal, França, Inglaterra, todos os lugares. . .
-Acho melhor lavar a louça.
-Deixa a louça pra lá, você quer?
-Quero! -Digo achando tudo isso uma loucura e imprudência total.

Ele me puxa pelo braço, pega dois capacetes perto da porta, abre a mesma e sai e eu o sigo, sem pensar duas vezes.


No estacionamento uma moto, uma Shadow, nos espera. Ele sobe em cima da moto, coloca um dos capacetes na cabeça e me passa o outro.


Rodamos por muito tempo, pegamos a estrada. Pedro para em um mirante e descemos da moto. Vou para a beira e ele logo atras de mim

-Incrível, não?

-Existe lugares melhor para se ir. -digo com certeza.
-Já conheceu muitos lugares? -ele pergunta sentando do meu lado e olhando pra mim.
-Pela internet e imaginação conta? -sorrio. Percebo que fazia muito tempo que eu não sorria sinceramente. Ele sorri também.
-Quais lugares você quer visitar?
-Eu quero visitar tudo! Quero sai com uma mochila e me perder por ai.
-Dizem que precisa se perder para se achar. - Olho para ele, no fundo dos olhos. Por um momento parecia que já nos conhecíamos.
-Pois é. - desvio o olhar - Mas isso provavelmente nunca vai acontecer, preciso de coragem pra pensar em sumir assim e eu não tenho nem um pingo. Mas então, Pedro, o que você faz da vida, afinal você tem uma moto muito cara -troco de assunto.
-Bom, -ele sorri- eu estudo direito, já estou quase concluindo na verdade. E faço estagio numa empresa de advocacia. E sobre a moto - ele aponta para a mesma- meu pai me deu, depois de morrer.
-Desculpe, eu realmente não sabia.
-Ta tudo bem, já estou acostumado com isso, minha mãe também morreu, mas isso já faz muito tempo.
-Minha mãe também morreu, mas já faz tempo, eu era pequena.
-E você, Laura, o que faz da vida.
-Bom, eu ainda estou no Ensino Médio, fiquei atrasada por conta do que aconteceu com minha mãe e perdi um ano inteiro quando fiquei internada. -falo com vergonha.
-Entendo, mas não fiquei mau por isso, todos tem seu tempo.
Antes que eu pudesse responder meu celular toca, era meu pai:

"-Oi pai.

- Laura onde você está? - ele diz com a respiração acelerada, estava muito preocupado.
-O Pedro me chamou pra dar uma volta, eu estou bem
-Ai que alivio
-Eu já estou voltando pra casa, não se preocupe
-Filha, pode ficar, se divirta um pouco.
 -Tá, tchau."

-Ta tudo bem? -pergunta Pedro
-Ta sim, era meu pai, me disse pra ir pra casa.
-Tudo bem, vamos eu te deixo em casa.

Eu realmente gostei de sair com o Pedro, me senti viva de novo. Mas ficar mais tempo com ele ali, naquele lugar deserto, só me faria jorrar pra cima dele tudo que está entalado na garganta com o passar do tempo. E ele não precisa ouvir, não tem culpa de nada.

-Obrigada por me trazer, não precisava. -agradeço entregando o capacete para Pedro.
-Que isso, foi um prazer. Mas me passa teu numero pra gente sair de novo. -ele me entrega o celular e salvo meu numero. Entrego o celular dando um beijo na bochecha dele e quando ele me puxa para um beijo, eu desvio e abraço-o.
-Obrigada mesmo!
Entro em casa, meu pai estava no banho, aproveito para ir direto pra cama. Quando estava quase dormindo, meu celular toca informando que uma mensagem havia chegado, um numero desconhecido.
"-Obrigado por hoje, como amanhã é sábado, gostaria de ir comigo em um lugar?"
Percebo que era o Pedro, salvei o numero dele e por puro impulso, respondi a mensagem com um simples "Vamos" e coloquei o celular em cima da escrivaninha antes que eu pudesse mudar de ideia.






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